Inteligência artificial transforma o mercado de trabalho nas grandes cidades brasileiras
Quando o contador Paulo Henrique, 41 anos, percebeu que o software que sua empresa havia adotado conseguia fazer em minutos o que ele levava horas para concluir, ele teve uma crise. "Fiquei com medo de me tornar obsoleto", conta. Dois anos depois, Paulo não perdeu o emprego — mas sua função mudou radicalmente. Hoje ele supervisiona o trabalho da IA, interpreta os resultados e assessora clientes em decisões estratégicas que nenhum algoritmo consegue tomar sozinho.
A história de Paulo ilustra uma tendência que um estudo inédito do Centro de Pesquisa em Tecnologia e Trabalho da FGV documenta com dados abrangentes: a inteligência artificial não está simplesmente eliminando empregos no Brasil, mas está transformando profundamente o conteúdo do trabalho em quase todos os setores.
Quem está sendo mais afetado
O estudo, que acompanhou 50 mil trabalhadores em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife ao longo de dois anos, identificou que as profissões com maior risco de automação parcial são aquelas que combinam tarefas repetitivas com processamento de informações estruturadas: contadores, analistas de dados de nível júnior, atendentes de call center, operadores de caixa e revisores de texto.
Mas "automação parcial" é diferente de "eliminação". Em 78% dos casos estudados, a IA assumiu parte das tarefas, mas não o trabalho inteiro. O que mudou foi a proporção do tempo dedicado a cada atividade — menos tempo em tarefas mecânicas, mais tempo em julgamento, criatividade e relacionamento humano.
"A IA é uma ferramenta de amplificação humana, não de substituição. O problema é que nem todos os trabalhadores têm acesso às ferramentas e ao treinamento necessários para fazer essa transição." — Pesquisadora da FGV
As novas profissões que surgem
O mesmo estudo identifica categorias de trabalho que cresceram significativamente nos últimos dois anos, diretamente relacionadas à expansão da IA: engenheiros de prompts, especialistas em ética de algoritmos, treinadores de modelos de linguagem, auditores de sistemas automatizados e especialistas em experiência do usuário para interfaces de IA.
Essas profissões têm em comum a necessidade de combinar conhecimento técnico com habilidades humanas difíceis de automatizar — pensamento crítico, empatia, criatividade e julgamento ético. E, por enquanto, pagam salários significativamente acima da média do mercado.
A desigualdade na transição
O aspecto mais preocupante do estudo não é o impacto da IA em si, mas a distribuição desigual de seus benefícios e custos. Trabalhadores com ensino superior e acesso a programas de requalificação estão conseguindo fazer a transição com relativa facilidade. Mas trabalhadores mais velhos, com menor escolaridade ou em cidades menores têm muito mais dificuldade.
Essa desigualdade na transição tecnológica pode aprofundar as divisões sociais já existentes no Brasil. Políticas públicas de requalificação profissional, acesso a internet de qualidade e educação tecnológica nas escolas públicas são identificadas pelo estudo como as intervenções mais urgentes para garantir que a revolução da IA não se torne mais um fator de exclusão no país.
Especialista em tecnologia e sociedade. Cobre o impacto da digitalização no trabalho e na vida cotidiana.