Economia

Investimento estrangeiro no Brasil cresce 31% no primeiro semestre de 2026

O Brasil voltou ao radar dos investidores internacionais. Energia renovável, agronegócio e tecnologia lideram a captação, mas economistas alertam para riscos estruturais que persistem.
Marcos Vieira Por Marcos Vieira 24 de junho de 2026 Atualizado: 24 jun 2026, 20h30 6 min
Economia

Os dados divulgados pelo Banco Central nesta semana confirmam o que o mercado financeiro já vinha sinalizando: o Brasil está de volta ao mapa dos destinos prioritários para o investimento estrangeiro direto. No primeiro semestre de 2026, o país recebeu US$ 42,7 bilhões em IED — um crescimento de 31% em relação ao mesmo período do ano anterior e o melhor resultado desde 2011.

O número é expressivo por si só, mas ganha ainda mais relevância quando colocado em perspectiva global. Enquanto o fluxo global de investimentos estrangeiros recuou 8% no período, impactado pela incerteza geopolítica e pelo aperto monetário nas economias desenvolvidas, o Brasil nadou contra a corrente.

Quem está investindo e por quê

A composição do IED em 2026 é diferente da de ciclos anteriores. Desta vez, os setores que mais atraem capital são energia renovável (especialmente eólica e solar), agronegócio de alta tecnologia e serviços digitais. Esses três segmentos respondem por quase 60% do total captado no semestre.

A transição energética global é um fator determinante. O Brasil tem uma matriz elétrica já predominantemente renovável e um potencial enorme para expansão — especialmente no Nordeste, onde a irradiação solar é uma das maiores do mundo. Empresas europeias e asiáticas estão posicionando o país como um hub de produção de energia limpa para exportação.

"O Brasil tem o que o mundo precisa: terra, água, sol e vento. A questão é transformar esses recursos em investimentos sustentáveis de longo prazo." — Analista de mercado de banco multinacional

Os riscos que persistem

Mas economistas experientes pedem cautela antes de celebrar. O Brasil tem um histórico de atrair capital estrangeiro em ciclos de euforia que se encerram abruptamente quando o ambiente global muda ou quando problemas estruturais domésticos voltam à superfície.

Entre os riscos identificados pelos analistas estão: a incerteza fiscal de médio prazo, com o debate sobre o teto de gastos ainda não resolvido; a infraestrutura logística deficiente, que eleva os custos de produção e exportação; e a burocracia tributária, que mesmo com a reforma em andamento ainda é considerada um obstáculo significativo para investidores estrangeiros.

IED no Brasil — 1º Semestre (US$ bilhões) 2021 2022 2023 2024 2025 2026 +31%

O papel da estabilidade política

Um fator que os investidores citam com frequência é a percepção de maior estabilidade política e institucional. Após um período turbulento, o Brasil parece ter encontrado um equilíbrio — ainda que frágil — entre as forças políticas que disputam o poder. Para o capital estrangeiro, que precisa de horizontes de planejamento de pelo menos cinco a dez anos, essa percepção de estabilidade é fundamental.

O segundo semestre será um teste importante. As eleições municipais de outubro costumam agitar o ambiente político e podem trazer volatilidade ao câmbio e aos mercados de ativos. Como o capital estrangeiro reagirá a esse período será um indicador importante da solidez do interesse pelo Brasil.

Marcos Vieira
Marcos Vieira
Editor de Economia — Revista Pulso

Economista e jornalista. Cobre mercados financeiros e desenvolvimento econômico há 14 anos.