A nova classe média brasileira e os desafios da mobilidade social no século XXI
Quando Fernanda Costa, 34 anos, conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada em 2023, ela não sabia que estava se tornando parte de uma estatística que vai redefinir o debate sobre desigualdade no Brasil. Técnica de enfermagem formada pelo Pronatec, Fernanda saiu de uma família que vivia com menos de um salário mínimo per capita para um patamar que pesquisadores classificam como "nova classe média emergente".
Histórias como a de Fernanda se multiplicaram nos últimos três anos. Uma pesquisa inédita do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada esta semana, mostra que aproximadamente 12 milhões de brasileiros cruzaram a linha que separa as classes D e E da chamada classe C entre 2023 e 2026. É o maior movimento de ascensão social registrado desde o boom da primeira década do século.
O que define a classe média brasileira
A definição de "classe média" no Brasil nunca foi simples. Diferente de países com estruturas sociais mais consolidadas, a classe C brasileira é um grupo heterogêneo que inclui desde trabalhadores com renda mensal de R$ 2.500 até famílias com renda de R$ 8.000. O que os une não é apenas a renda, mas um conjunto de características: acesso ao crédito, propriedade de bens duráveis, filhos em escolas particulares ou cursos técnicos, e — cada vez mais — acesso à internet e ao consumo digital.
Para a socióloga Marina Pacheco, da Universidade de Brasília, essa heterogeneidade é ao mesmo tempo a força e a fragilidade da classe média brasileira. "Ela é grande o suficiente para influenciar eleições e mercados, mas internamente dividida o suficiente para não ter uma identidade política coesa", explica.
"Ascender para a classe média no Brasil ainda significa estar a um desemprego de distância da pobreza. A vulnerabilidade é estrutural, não individual." — Marina Pacheco, socióloga, UnB
Os motores da ascensão recente
O que explica o movimento observado nos últimos três anos? Os pesquisadores do Ipea apontam uma combinação de fatores: a formalização do mercado de trabalho, impulsionada por programas de qualificação profissional; o aumento real do salário mínimo acima da inflação; a expansão do crédito para pequenos empreendedores; e os programas de transferência de renda, que funcionaram como uma rede de segurança que permitiu que famílias assumissem riscos econômicos maiores.
A digitalização da economia também teve um papel importante. Plataformas de trabalho por aplicativo, comércio eletrônico e serviços digitais criaram novas formas de renda que não existiam uma década atrás. Embora essas formas de trabalho sejam frequentemente precárias, elas permitiram que muitos brasileiros complementassem sua renda formal e acumulassem capital para pequenos investimentos.
A fragilidade da ascensão
Mas os pesquisadores são cautelosos ao celebrar os números. A mobilidade social ascendente no Brasil tem uma característica histórica preocupante: ela é reversível. Nas crises de 2015-2016 e 2020-2021, milhões de brasileiros que haviam ascendido à classe média voltaram à pobreza em questão de meses.
O que diferencia a situação atual das anteriores, segundo o Ipea, é a combinação de formalização do trabalho com acesso à educação técnica e superior. Trabalhadores com qualificação formal tendem a ser mais resilientes a choques econômicos do que aqueles que ascenderam apenas pelo aumento da renda informal.
Para Fernanda, a técnica de enfermagem que mencionamos no início, a diferença é concreta: "Antes, qualquer problema de saúde na família significava dívida. Agora tenho plano de saúde pelo trabalho. Isso muda tudo." Mas ela reconhece a fragilidade: "Se perder o emprego, não sei quanto tempo consigo me manter."
O que os dados não mostram
Por trás dos números agregados, há uma história de desigualdades que persistem. A ascensão social dos últimos três anos foi significativamente mais intensa nas regiões Sudeste e Sul do que no Norte e Nordeste. Mulheres negras continuam sendo o grupo com menor mobilidade ascendente, apesar dos avanços. E a classe média que emerge hoje é mais urbana, mais digital e mais dependente de serviços do que a que surgiu nos anos 2000.
Esses padrões importam porque sugerem que a mobilidade social no Brasil ainda é fortemente determinada por fatores estruturais — raça, gênero, região de nascimento — que políticas públicas universalistas têm dificuldade de endereçar adequadamente.
Socióloga e jornalista. Especialista em desigualdade social e políticas públicas no Brasil.